Ela morava num quartinho atrás da casa de chás. Geralmente no fim de tarde, após botar os bolos no forno recolhia-se ao seu canto e ficava vendo os objetos espalhados sob os móveis: copos que giravam trezentos e sessenta graus, tampa de lata de doce feito bumerangue, barquinhos com as velas quebradas... o silêncio doía nos tímpanos.
Nunca tive bicho de estimação, até vir morar aqui. Nunca imaginei o que é o amor nessa relação mais humana que muita por aí. Nunca soube. E continuo sem saber por que os que nos apegamos mais são os que primeiro se vão. E dói.
Apesar de muito cansada e de estar ouvindo essas musiquinhas que mais te dão vontade de dormir eu não poderia deixar de contar. Contar do dia em que eu e Divi falávamos amenidades espalhafatosas. Divi chegava até a confundir com aqueles peitões siliconados. Foi logo após, ela morrendo de rir, ao comparar os inúmeros salões de beleza do centro aos prostíbulos da cidade baixa.
Mulher veja mesmo, as pobres feiosas não tiveram outra opção ao não ser arrancar bifes dos dedos e saírem transmitindo HIV, Hepatite C e outras mazelas mais praquelas clientes que se acham.
[...]
E é assim meu bem, não deu pra dar, corta carne dos outros e ainda sobra um dinheirinho pra cerveja no fim da sexta-feira. Ainda bem que eu gata garota já firmei minha clientela.
Quando vi o relâmpago clareando janela adentro resolvi sair pra fumar um cigarro no parapeito que dava pro jardim e até querendo lembrar quem levou meus vinis antigos, foi que vi aquele carro com luz alta se aproximar. Dele saiu um homem que de olhar me fez voltar rapidamente para dentro de casa. Mas, já era tarde, o tal homem com a arma na mão mandou a gente ficar quietinha e cuidar de passar tudo que fosse de valor na casa. Divi, arrasada, ainda quis negociar as roupas e as jóias que ela vendia: coisas caríssimas.
Aqui não tem isso, vai passando tudo antes que eu meta bala nesse teu silicone.
Agarrada naquele anel de rubi, que disse Divi, ser da sua tataravó, o homem atirou e foi embora deixando ela aflita, não pela dor no peito, mas pela leve impressão de que iria voltar praquela vida de manicure.
Cajazeirense recebe prêmio nacional em João Pessoa
Por Adalberto dos Santos
Cajazeiras tem raros escritores. Poetas, uns tantos, e, mesmo assim, poucos. Que dizer de ficcionistas, um grupo cada vez mais escasso no panteão das letras locais? Tirante a obra romanesca de um Ivan Bichara, há décadas não aparece um prosador que dê à cidade destaque como outrora fez o autor de Carcará. E nem serve citar o escritor Gildemar Pontes, que este é de Cajazeiras adotado. Sua alma pertence inteira à cidade de Fortaleza.
De verdade, se cajazeirenses existem fazendo prosa literária, estamos para lê-los. Quer comprová-lo, percorra as prateleiras da biblioteca pública local. Há de se achar historiadores, memorialistas, muitos poetas. Ficcionistas, nem tanto. Cristiano Cartaxo faz poesia tradicional, das mais belas já surgidas na Paraíba. O escritor Zé do Norte é exemplo de contador de causo e memorialista, fazedor de prosa-brincadeira, centrada no humor sertanejo bem típico da conversa-fiada. Deusdedit Leitão é incomparável na pesquisa histórica. Faltam-nos, enfim, mais livros de ficção.
É com alegria, pois, que Cajazeiras recebe, para se somar à ainda pequena lista de ficcionistas locais, a estreante Amanda Karla de Souza, que nesta sexta (23) lança seu livro Cogumelos nascem no telhado. A autora foi premiada ano passado no concurso Correio das Artes 60 Anos, do conhecido suplemento cultural do jornal A União. A obra será lançada durante a entrega do prêmio, que acontecerá às 17h na Fundação Casa José Américo, em João Pessoa.
O concurso Correio das Artes foi realizado pelo Governo do Estado em 2009, mas o resultado com o nome dos contemplados só saiu em março do ano passado. Nesse ano, foram premiados os ganhadores da categoria Redação, restando entregar o prêmio, que incluía a publicação de um livro de cada autor premiado, das categorias Conto e Poesia. É o que será feito nesta noite, incluindo entre os grandes vencedores a cajazeirense de 26 anos, bacharela em Direito, e que atualmente reside na capital.
A obra
Quem se acostumou a ver Cajazeiras representada nos romances de Ivan Bichara, terá uma surpresa ao ler Amanda Karla. A escritora em nada herda da cartilha do nosso maior expoente no campo da ficção. Cogumelos nascem no telhado é um livro de textos curtos, com temática amplamente variada e diferente da ficção do romancista cajazeirense, propositalmente representativa das características do sertanejo local.
Em Amanda K., a prosa não é demorada como nos romances de Bichara. Nos Cogumelos a escritora se vale de um recurso simples e bastante atual à escrita contemporânea. Escreve curto e sem rodeios, o que, sem desejar rotulá-la, a insere na geração de escritores surgida com o advento de ferramentas virtuais como o blog.
Aliás, segundo a própria autora (leia entrevista abaixo), parte da obra resulta da sua experiência na Internet, onde há oito anos mantém o blog Verdura, no qual por muito tempo publicava seu registro íntimo, e, entre variadas anotações pessoais, textos que, como explicou, “pareciam ficções”, mas “não passavam de uma realidade mascarada pelas palavras”.
Os pequenos textos do livro são instantâneos de uma realidade que está para o que a autora chama de “materialização” de certa “loucura inconsciente”. Por isso mesmo, não é fácil classificá-lo, embora formalmente seus textos estejam no limite entre o poético do conto-poema e o prosaico do diário pessoal.
Mas surge o Cogumelos como livro de contos, pois assim foi avaliado pela comissão do concurso. Para a autora, classificá-lo é o de menos. “No fundo, o livro é e será sempre uma recordação comparada a um antigo álbum de fotografia”. Para além do entendimento de terceiros, é sempre o autor quem mais conhece a própria obra.
ENTREVISTA
Depois de muito escrever no blog Verdura, Amanda Karla ampliou a experiência da escrita virtual, já tendo publicado em revistas, sites e suplementos literários, a exemplo da revista eletrônica Germina, Correio das Artes e Portal Literal. Também fez parte dos integrantes da Revista Bagatelas, no Rio de Janeiro, que reunia escritores de todo o Brasil.
Na entrevista a seguir, a primeira após a confirmação do recebimento do prêmio do jornal A União, a autora fala sobre o livro e o seu trabalho de escritora, comenta o prêmio e revela a dificuldade que é publicar um livro no Brasil.
Como definiria seu livro?
É a materialização da minha loucura inconsciente. São trechos que misturam sonhos, desejos e um pouco de realidade.
Por que Amanda K.?
É só a abreviação do meu nome Amanda Karla; gosto do K, mas não gosto do Karla, entendeu!?
Antes dessa estreia, você escrevia (e ainda escreve) na Internet. Qual a importância do blog para o aprendizado da escritora Amanda K.?
O blog serviu de estímulo. Quando comecei a publicar nesse espaço, isso há oito anos, o universo dos blogs ainda era novidade, havia mais interatividade, comparada a um Facebook de hoje. Então, me sentia instigada a escrever e a ver qual a opinião dos leitores.
No blog, quando começou a escrever literatura? Houve um momento em que resolveu fazer ficção ou simplesmente aconteceu?
Não sei exatamente quando comecei, aconteceu. No entanto, devo revelar que inicialmente muitos dos textos publicados no blog pareciam ficção, mas não passavam de uma realidade mascarada pelas palavras. Com o tempo, fui gostando desse exercício e foram surgindo trechos, que hoje quando leio ainda me pergunto, “de onde eu tirei isso?”
Todos os textos do Cogumelo foram escritos no blog?
Não. E mesmo os inicialmente postados no blog sofreram modificações para o livro.
Segundo me disse, o prêmio demorou muito a chegar. Em sua opinião, ainda há dificuldades para se publicar no Brasil?
Há dificuldades sim. Acho que pra publicar aqui no Brasil, só tendo sorte. Sorte de alguém te indicar pra alguma editora, sorte de ter dinheiro ou sorte de ganhar algum concurso literário. E, nesse último caso, se for promovido por algum órgão público, você ainda tem que ter a sorte de ter nascido com o dom da paciência (risos).
O que é mais difícil, ganhar um concurso literário ou achar uma editora que acredite em seu livro?
Complicado responder, porque é bem relativo. Mas, acho que achar uma editora é mais difícil, porque ela está mais interessada em saber se o livro vai ser rentável, e creio que ela não está a fim de dar um tiro no escuro! O mercado empresarial é cruel.
Você imaginava ganhar o concurso do Correio das Artes?
Eu sonhava em ganhar, queria muito publicar esse livro. Mas, até isso se tornar realidade, seriam outros quinhentos, porque o concurso, sendo nacional e tendo uma boa premiação, a concorrência era grande.
Para uma escritora iniciante, qual a responsabilidade após a publicar um livro através de um concurso cultural tão prestigiado?
Não sei se a palavra seria responsabilidade, mas talvez cobrança, pelo menos da minha parte. Fico naquela de saber se ainda vou conseguir escrever outro livro, se será bom, enfim. Mas isso só o tempo dirá.
E nem me liguei naquela massa viscosa sem gosto, até porque a loira chegou. A loira, daqueles cabelos progressivamente empenados. Fazer o que? Se tem hora que a vida parece um imenso desmoronamento de barreira: tão assustador de ver.
Ele sorria mostrando aquelas gengivas vermelhas, bem vermelhas. E sei lá por que cargas d’água eu queria muito passar a língua naquela vermelhidão, principalmente depois de ficar ali sentada na escada escura com os olhos piscando de tanto ver gente subindo e descendo. Não agüentava mais aquele par de peitos enormes da menina que no fundo só queria fazê-los de airbag para mocinha de voz rouca.
Como eu precisava daquelas gengivas...
Então dei pra demonstrar um conhecimento apuradíssimo cantando músicas do Ozzy I'm just a dreamer... sem saber eles que morro de medo de todas essas coisas meio diabólicas, sei lá, deusmelivre.
Mudando de som, para a minha sorte He thinks 'what's she running from'… Finalmente. Se Amy estava para noite, então já podia sentir aquela carninha meio bife/morango.
Fiquei cantando essa musiquinha ai debaixo nem sei se dentro do contexto. Foi logo depois de me envergonhar mais uma vez pelos outros. Eu tenho vergonha do que vocês fazem, ou melhor, dizem nesses twitters da vida. Deslumbramentos excessivos, panelinhas e afins. Se a literatura aqui, já andava mal das cabeças, agora então... se é que me entendem. E esse computador trava horrores. Oh vida às vezes desnecessária!
Hoje baixamos o colchão do berço de Marina e não foi que fiquei meio emocionada. O tempo está passando. Eu achava que isso nunca ia acontecer ou que talvez não fosse sobreviver. Os primeiros meses foram muito difíceis. Mas agora... está tão bom. Tão engraçado. Morro de rir e fico tão abestalhada com as risadas, com as palavras nada entendidas e com sua vontade de agarrar tudo de uma vez só. E eu com vontade de mostrar também tudo de uma só vez. E é música, é palma, é beijo, é brinquedo...
E fiquei pensando que eu não gosto de história bem contada, isso quer dizer tudo na ordem com começo meio e fim. Me dá preguiça de ler. E eu também não sei escrever assim. Gosto das idéias embaralhadas, e das coisas subentendidas.
E gostei de saber que finalmente vou receber meu prêmio e que finalmente meu livro vai sair. O pobre do “cogumelos” está mofando há quatro anos.
E eu ainda não aprendi a escrever texto grande.
Ainda não aprendi a falar, nem explicar direito.
Principalmente se tenho raiva, só choro e me tremo. E o que tenho pra dizer sai em frases curtas e esparsas.
E eu voltei a trabalhar e deixei Marina no berçário. Chorei.
Gosto de um homem só, que me faz bem.
Vi BBB11 torcendo pro Daniel “aff Maria”, vejo a novela das 8, assisti Bruna Sufistinha e to lendo nas horas nada vagas Máquina de Pinball da Clara Averbuck, depois de meses sem leitura.
Lendo o blog da minha prima Elisa e achando bonito o jeito como ela é e se preocupa em ser boa mãe. Na verdade, acho que cada uma do seu jeito, busca a melhor forma de cuidar e criar um filho, e pelo menos eu, fico imaginando um monte de coisa que gostaria de fazer quando Marina tiver tal e tal idade. Mas, gostei mesmo quando ela, Elisa, disse que deseja que seus “filhos aprendam a dar valor à simplicidade da vida, aos valores que realmente importam”, e de como gostaria que eles pudessem viver pelo menos um pouco do que foi sua infância no sítio. Poxa, eu também. Não sei se é mal da gente que veio do mato, às vezes acredito mesmo que minha infância foi a melhor que a de todo mundo, pois só eu escrevi meu nome em árvore, sujei minha roupa de terra de lama e de água de riacho, comi siriguela e manga no pé e guardei inúmeras cicatrizes nos joelhos. E bem sei o quanto gostaria que Marina tivesse a mesma oportunidade que nós tivemos. Pelo menos me contenta saber que nossa casa tem um quintal enorme pra ser na cidade e que temos nosso pomar e nossa cachorrada. Mas sei que a simplicidade ultrapassa tudo isso. Simplicidade vem do caráter. É a gente torcer pra que ela consiga enxergar o simples nas coisas mais complexas e sem noção que a vida carrega.
Eu sei que Preta me entende bem, principalmente depois de lamber a cabeça de seu filho, Negão, após mais uma de suas inúmeras brigas com os outros cachorros. Tudo isso porque Marina caiu da rede e eu chutei, esmurrei a parede, me tremi toda e depois chorei. Acho que pela primeira vez eu senti de verdade aquela história do instinto materno. É estranho e muito forte. Mais estranho ainda, está esse ano, que começou cheio de ansiedades e incertezas. De certo mesmo, só o amor pela minha família. E sei lá, às vezes fico parecendo meio Xuxa e até queria ser ela na capa daquele disco numa banheira cheia de rosas que implorei horrores para minha mãe comprar. Enfim, vamos viver e ver no que dá.
Acordar sem vontade de fazer nada e até querendo fugir para onde por 24 horas não se escutasse. É coisa fora de planos ou chance. Com o mundo fervilhando eu fecho as portas. Quando voltar parecerá outras pessoas, só a rua, com carros e pensamentos acelerados, ainda será a mesma. E eu na busca da eterna satisfação.
Não adianta resistir. Até quis, mas bêbe quer mesmo ser ninado. Já ofereci minha licença maternidade para Marcelo que fala sobre ter jeito com Marina. Então a gente canta todo o repertório musical e opa ela dormiu, bota no berço e opa ela acordou, golfou e começou o soluço, o danado do soluço. Vamos começar tudo de novo. Comer, arrotar, cantar, dançar, botar no berço, rezar o Santo Anjo inúmeras vezes. Tem hora que se pensa: onde eu tava? Ninguém me falou que era assim tão difícil. Dormir menos de 3 horas, comer correndo e bemm fora de hora, banho quando? Leitura só de autoajuda, “Casamento a prova de bêbes”, para rir e finalmente começar a perceber outro mundo que jamais imaginei existir.
Nunca pensei estar tão contente vestindo uma antiga calça jeans. Fiquei assim no espelho “estou de volta”. Tem gente que acha a gravidez linda, eu não. E não falo de estética, isso é apenas simbólico. Falo de dependência e de proibições. Agora que estou melhor, tenho vontade de pegar Marina e sair andando por aí. Tenho vontade de amar mais e mais Marcelo. Tenho vontade de respirar fundo. É a mais pura sensação de liberdade. Refazer planos e criar forças para realizá-los após nove meses de recesso. Voltei.
Com as mãos cheirando a alho, Creuza me liga e me chama de Dona Maria. Digo “Dona Maria mesmo”. A existência de Marina tem me feito avaliar várias situações-relações. Como fui criada e educada e porque sou como sou. Marina tem sido e imagino que seja meu maior desafio, desafio este que carregarei por toda a vida. Assusta e muito. Eu que achei ter superado tudo, agora escrevo apenas com o indicador direito enquanto ela mama. É tudo misterioso e inesperado. É preciso paciência e obstinação. Agora entendo realmente todas aquelas coisas grandiosas sobre as mães, as verdadeiras mães, as que criam, que educam, que vestem a camisa, e nem lembram do que foram ou fizeram um dia. É daqui pra frente. To tentando, cheia de medo e lágrimas, compreender tudo, descobrir os melhores caminhos para ela, para nós. E ficando feliz quando ela gira 90% no berço e levanta a cabeça atrás do leite e quando espirra de um jeito único que faz todos sorrirem.
Nem que fique só no pensamento. Tem quem diga que isso é muito ruim. Meu coração palpita. Escuto atentamente. Esquento para depois gelar as mãos. Deve ser a história do prato frio. Mas, eu arquiteto e fico entre riso e choro. Só que quando escrevo, já passou. E leio Pessoa.
Passagem das Horas
(Álvaro de Campos)
Sentir tudo de todas as maneiras,
Viver tudo de todos os lados,
Ser a mesma coisa de todos os modos possíveis ao mesmo tempo,
Realizar em si toda a humanidade de todos os momentos
Num só momento difuso, profuso, completo e longínquo.
Eu quero ser sempre aquilo com quem simpatizo,
Eu torno-me sempre, mais tarde ou mais cedo,
Aquilo com quem simpatizo, seja uma pedra ou uma ânsia,
Seja uma flor ou uma idéia abstrata,
Seja uma multidão ou um modo de compreender Deus.
E eu simpatizo com tudo, vivo de tudo em tudo.
São-me simpáticos os homens superiores porque são superiores,
E são-me simpáticos os homens inferiores porque são superiores também,
Porque ser inferior é diferente de ser superior,
E por isso é uma superioridade a certos momentos de visão.
Simpatizo com alguns homens pelas suas qualidades de caráter,
E simpatizo com outros pela sua falta dessas qualidades,
E com outros ainda simpatizo por simpatizar com eles,
E há momentos absolutamente orgânicos em que esses são todos os homens.
Sim, como sou rei absoluto na minha simpatia,
Basta que ela exista para que tenha razão de ser.
[...]
DE INVEJA
Era tarde. E nunca pensei em ter dinheiro e não saber que livro comprar. Rodei e parei em: Poemas de Álvaro de Campos; O futuro de uma ilusão de Freud e; Esboço para uma teoria das emoções de Sartre. Teve uma senhorinha com sotaque gaúcho que disse: Caramba ela vai levando 3 livros por 34 e eu só um por 35. Ela comprou um de Rubem Fonseca e num é que na hora deu vontade de trocar.
Tempo que penso num monte de coisa pra escrever. Mas tenho vindo pouco aqui. Penso e logo esqueço. Enquanto meu livro não sai, imagino outros que pretendo escrever um dia. Quero pelo menos um romance e um infantil: para este último já tenho vários motes.
A vida tem passado acelerada, apesar de achar que ando meio parada no espaço. Eu dentro de uma bolha, e sou uma bolha com Marina dentro. Aliás, hoje está fazendo 6 meses e é engraçado.
De leitura apenas bulas de remédio, ultrassons, revistas e sites para bebês. Músicas novas só o Cd de She & Him Two que baixei recentemente: não tão novo. E de amigos só os velhos que perguntam se estou viva.
É que de repente algumas coisas perderam o sentido para dar espaço a outras.
Paulinha perguntou porque eu não estava mais escrevendo. E deduziu: “Você tá vivendo mais a realidade e pra escrever a gente tem que viajar mais né!?” Na hora até concordei. Só que depois... percebo que tenho escrito de uma outra forma, viajado de uma outra forma.
Esperar um filho é ter mesmo mais medo que o normal. É ficar mais apegada que o normal. Depois que cheguei aqui em Cajazeiras, para uma viagem de 3 dias apenas, senti uma saudade (e to sentindo) tão grande de Marcelo, dos cachorros, e da casa que parece que nunca mais vou vê-los. E se eu já era exagerada, meu Deus!!!
Chegando aqui ganhei o primeiro presente para Marina ou para Mário e um livro bem bom para o meu primeiro dia das mães. To lendo rapidinho e sabendo que segunda vou chegar em casa e vou encontrar meu amor e os cachorros vão correr para os meus pés e eu vou encher os olhos de lágrimas como se fizesse um século que não os via.
“A barriga traz a consciência da morte, tão boa e útil. Professora certa para resolver os problemas fundamentais da vida. Quem nunca pensou em morrer, na gravidez pensa. Na própria morte e na dos parentes. Pensa também nos que já morreram. Pensa de forma concreta, assustadora. É a natureza ensinando que vem chegando mais um, do lado de lá. Que existe um lado de lá e um lado de cá. A barriga é uma ponte de comunicação entre dois mundos, material e espiritual, ensinando para mulher o funcionamento da vida.”
“ÉS UM SENHOR TÃO BONITO QUANTO A CARA DO MEU FILHO”
Olho a ampulheta. Bem a frente. Nas sacolas o tempo se mistura: dicionário de espanhol, código penal, Bukowski... Qualquer mudança é nostálgica, por mais imprevisível e fascinante que ela seja.
Mudar = “1.Pôr em outro lugar; dispor de outro modo; remover, deslocar: 2.Dar outra direção a; desviar: 3. Tirar para pôr outro; substituir: 4. Transferir para outro local: 5. Alterar, modificar: 6. Trocar, cambiar; variar: 7. Fazer apresentar-se sob outro aspecto”.
Fiquei pensando que esse prêmio veio para me puxar de volta para a literatura. Passar a ver a vida com menos praticidade? Como disse uma amiga eu deveria ter lido menos ficção e ter aprendido mais sobre saúde, sobre sobre... mas eu preferi mesmo aprender sobre como ficar feliz com o vento que assanha meu cabelo, aprendi a cantarolar com Chico “agora falando sério, eu queria não falar...”, aprendi a chorar e a falar sem limites, aprendi a achar que minha vida daria um ótimo roteiro de novela mexicana. E que coisa mais piegas, que coisa mais engraçada. Corro com medo de injeções e vacinas, e agora quantas agulhas me furando. O que vale disso tudo é que “Sabia/Que ia acontecer você, um dia/E claro que já não me valeria nada/Tudo o que eu sabia/Um dia”.
Governo divulga resultados dos concursos literários do Correio das Artes
O Governo do Estado anunciou, nesta quarta-feira (3), os premiados nos concurso de Conto, Poesia e Redação promovidos pelo Correio das Artes.
Na categoria Poesia, o primeiro lugar ficou com o poeta Astier Basílio; na categoria Conto, o primeiro lugar ficou com as escritoras Amanda K e Maria Aparecida Coquemala; e na categoria Redação, o primeiro lugar ficou com Kleiton Silva Serrano.
O anúncio foi feito durante evento realizado na Secretaria de Comunicação, com as presenças de Genésio de Souza Neto, secretário executivo de Comunicação; Nelson Coelho, superintendente de A União; Antônio Mariano, editor do Correio das Artes; e Sílvio Osias, editor de A União.
Ao abrir os trabalhos de premiação do resultado do Concurso Nacional de Contos e Poesia e do Concurso Estadual de Redação do Correio das Artes 60 anos, o superintendente de A União, Nelson Coelho ressaltou que, durante esse primeiro ano do Governo José Maranhão, o jornal conseguiu confeccionar 50 suplementos relacionados à história, literatura, educação e turismo, além de homenagear as mais diversas manifestações culturais da Paraíba.
Os concursos foram promovidos pelo Governo do Estado, através das Secretarias de Educação e Cultura e de Comunicação Institucional, da Subsecretaria de Cultura e de A União Superintendência de Imprensa e Editora.
De acordo com Nelson Coelho, foram inscritos 956 trabalhos de Redação, 22 de Contos e 45 de Poesias. “Tudo isso só foi possível devido ao apoio decisivo da secretária de Comunicação do Estado, Lena Guimarães, que não mediu esforços para realização dos concursos”, disse. Ele informou, ainda, que a entrega das premiações será definida pela secretária Lena Guimarães.
O certame foi instituído por ocasião da celebração da passagem dos 60 anos do Correio das Artes, suplemento cultural do jornal A União, fundado pelo jornalista e poeta Edson Régis em 27 de março de 1949.
O anúncio dos vencedores nas três categorias foi feito pelo secretário executivo da Comunicação, Genésio Souza, representando a secretária Lena Guimarães. Confira os resultados:
Poesia:
1º lugar: Astier Basílio da Silva Lima (João Pessoa – PB) com o livro intitulado “Final em extinção”. Receberá o prêmio no valor de R$ 10.000,00 (dez mil reais), além da publicação do livro pela gráfica da União.
2º lugar: Marcos Vinícius Queiroga (Rio de Janeiro – RJ). “Máquina na Pista”. Receberá o prêmio de R$ 5.000,00 (cinco mil reais), além da publicação do livro.
3º lugar: Gilvan Moura de Holanda (João Pessoa – PB). “Poesia em Pó integral e instantânea”. Receberá R$ 2.500,00 reais, além da publicação do livro.
A comissão julgadora do Concurso de Poesia foi integrada por Sérgio de Castro Pinto, poeta e professor da UFPB e membro da Academia Paraibana de Letras, João Batista de Brito, escritor, crítico de literatura e de cinema e professor do curso de Letras da UFPB, e Ricardo Anísio, jornalista, poeta e crítico de música.
Contos: Houve um empate e a comissão resolveu não desempatar, portanto foram dois ganhadores em primeiro lugar e estes receberão o prêmio destinado ao primeiro e segundo lugares somados e divididos pelos dois. Confira:
1º lugar: Amanda K (Cajazeiras – PB). “Cogumelos Nascem no Telhado” e Maria Aparecida Coquemala (Itararé- SP). “A Espera”. Cada uma receberá R$ 7.500,00 (sete mil e quinhentos reais pelo empate) e mais a publicação dos livros pela Gráfica de A União.
3º lugar: Ricardo Lahud (São Paulo) “Cachorros Brabos”. Ele receberá R$ 2.500,00 ( dois mil e quinhentos reais), além da publicação do livro.
A comissão de concurso de contos foi integrada por Maria Valéria Rezende, escritora, Rinaldo de Fernandes, escritor e professor do curso de Letras da UFPB, e Ronaldo Monte, escritor, poeta e psicanalista.
As obras vencedoras serão publicadas pela A União Superintendência de Imprensa e Editora.
[...] E além disso, não tenho paciência com pessoas que não abrem mão das coisas, que as perseguem chorando. Quando algo se vai, se vai. Está terminado. Deixe-o ir, então. Ignore-o e console a si mesmo, se necessitar de consolo, tendo em mente que nunca se recupera a mesma coisa que se perdeu. Sempre uma coisa nova. A partir do momento em que o deixa, já é diferente. Ora, isso também é válido para um chapéu que o vento arranca de sua cabeça, atrás do qual se tem que correr. Não o digo de modo superficial, mas sim de maneira profunda... tenho como regra de vida nunca me arrepender nem olhar para trás. Arrepender-se é um desperdício imenso de energia, e ninguém que pretenda tornar-se um escritor pode se dar ao luxo de entregar-se a ele. Não se consegue dar-lhe forma, não se pode construir nada a partir dele; só se pode mesmo chafurdar nele. Olhar para trás é igualmente fatal para a Arte. É manter-se pobre. A arte não pode e não tolera pobreza.
Katherine Mansfield in “Je ne parle pas français”. Nos meus raros momentos de leitura.
Faz tanto tempo que não paro. Que não corto as unhas e garanto, elas só me atrapalham. Penso em escrever para um velho amigo, mas também penso no que ele tem a ver com todo esse estado de espírito? Ele entenderia, pelo simples motivo de sentir e ver as coisas como eu vejo. Só que a vida nos levou para lugares distantes, mais de mil quilômetros. O que ainda nos aproxima, pelo menos do meu lado, são as boas lembranças das andanças pelas ruas de Cajazeiras, e da forma como achávamos aquele lugar tão bonito. Tudo era motivo para inspiração. Hoje quando vou lá, é bem diferente: vazio de gente, vazio de risos, vazio de divagações. Quanta coisa eu já fiz. Quanta gente juntei e me fiz o centro. E gargalhei, e chorei, e pulei. Agora, com os últimos acontecimentos, apenas um grande medo de ficar aprisionada no tempo. Um medo de não ser nada do que um dia pensei ser. Um medo...
E claro que hoje eu deveria colocar o trecho da música de Belchior!!! É com esses 25 anos que eu sei que nunca mais serei a mesma. Não só como no poema de Murilo Mendes “Ninguém sonha duas vezes o mesmo sonho”, mas é mais profundo.
Estava deitada e comecei a sentir o cheiro de xampu que vovó usava quando eu morava lá. Tinha uma cor amarela e era viscoso como gema. Lembrei que a vida é meio ovo e a felicidade uma gema: a parte mais gostosa e difícil de manter-se inteira.
Não gosto de médicos que abrem a boca no meio da consulta e olham pra você com cara de “é isso, se conforme”. Não gosto de escritores redundantes e que falam “a mais b igual a c”. Quando estudo costumo comentar ao lado: “concordo plenamente” “uau” “isso mesmo” “plagiou fulano” “eu heim!”. Quando encontro um texto bom, fico tão inquieta que levanto mil vezes da mesa pra fazer outras coisas. E tenho descoberto, depois de dois anos, que o Direito é uma ciência interessante, dependendo do ponto de vista e de quem você lê.
O ano começa de fato amanhã. Eu que tenho planos. Eu que tenho louça para lavar e vivo sempre quase organizada. Quase, principalmente depois de quatro dias de pernas para o ar. Gosto de anos pares, geralmente porque neles grandes coisas acontecem. Como por exemplo, dois anos que estou em João Pessoa. Então, quero ler e reler esse poeminha de Quintana e ver esse vídeo do Air, um bocado.
Como num filme de Chaplin a gente ri e chora ao mesmo tempo. Esses dias foram interessantes. Em paz com as pessoas que tenho vontade de levar comigo, sempre: Família, meu amor e meus melhores e bons amigos. Hoje uma preguiça infinda de ir trabalhar novamente. Então ouço Ella Fitzgerald “if dreams come true” pego minha bengala imaginária e vou tomar banho.
Vi “Herbert de perto”. Não sei se é porque é fim do ano. E eu fico mais que o normal. A história é bonita e forte: chorei. Os Paralamas é sim uma banda que curto muito. E depois quando saí percebi e falei: Sabe quando eu sei que gosto muito de você? Quando eu tenho medo de te perder, mas não é de a gente terminar o relacionamento porque nisso eu não acredito, é de um dia você não estar mais aqui: VIVO.
Eu procurei. Queria um texto de Rubem, um poema de Adélia ou de Quintana. Queria algo sobre ordem/caos, perfeccionismo. Talvez meio auto-ajuda: não leve tudo tão a sério. Algo para justificar minha vontade imensa contra as regras, contra as obrigações. Poder vezenquando me preocupar menos. E nem ligar. Nem ligar...
Esperança
Mário Quintana
Lá bem no alto do décimo segundo andar do Ano
Vive uma louca chamada Esperança
E ela pensa que quando todas as sirenas
Todas as buzinas
Todos os reco-recos tocarem
Atira-se
E
— ó delicioso vôo!
Ela será encontrada miraculosamente incólume na calçada,
Outra vez criança...
E em torno dela indagará o povo:
— Como é teu nome, meninazinha de olhos verdes?
E ela lhes dirá
(É preciso dizer-lhes tudo de novo!)
Ela lhes dirá bem devagarinho, para que não esqueçam:
Anjinha disse que não rasgaria mais sutiã, pra que? Eu nem visto essas coisinhas com elásticos. Até pensou num sapato vermelho com uma rosa de bolas brancas, mas voltou e calçou sua plataforma calando a vontade de ser pequena. Peut-être como se francês ela soubesse falar.
Tô com fome. E meu vizinho gay escuta algo do tipo “vida vazia vivo sozinho querida”. Então, espero o frango cozinhar e fico rindo sozinha tomando uma taça de vinho. Bem brega ouço mais um lacre de cerveja se abrir. “Nessa cidade todos tem felicidade. Eu só quero é viver.” E silencioso sei que mais uma lágrima dele cai depois de bater a porta. Mais trágico que cômico? “Outra cerveja beberei para esquecer. Um amor que surge numa mesa entre espumas terá que terminar”. E a trilha continua: “Eu fui usado como arma de vingança
Para fazer o mal ao seu namorado E agora ele volta pra você Você me deixa de lado”. Tsc.
Prefiro saber que visto 42, que meus pés estão cheios de calos, que quando caminho dói tudo. Prefiro saber que meus dentes estão quase caindo. Do que errar. Do que me sentir burra. De ser tão neurótica.
E que é tudo mentira. Porque eu me importo com tudo. E minha cabeça se confunde. Oh!
As lojas daqui já estão enfeitadas para o Natal. Eu gosto desse período. Apesar da hipocrisia e todas outras sias que tem eu prefiro colocar uma venda nos olhos e curtir. E as promessas para 2010 já começaram. Escuto The Kinks “Dandy”.
Não sei se o Sol, mas tem dia que eu não to afim de muito. Uma coisinha aqui dentro fica martelando: o que essa garota quer afinal? Talvez seja falta de um livro, ou de um filme. Porque no momento eu tenho todos os elementos que pedi. Trabalho muito trabalho. Amor muito amor. Saúde nem tanto, mas... Será falta de arte? Ou de vergonha? Parece também que quando a gente mora só fica mais maluca que o normal. Um bloqueio da voz.
No meio dos cupins eu catei algumas moedas antigas e fotos. Páginas inteiras comidas e pensei: cupim não come memória, mas bem que devia vezenquando. Eu me balanço na rede escuto música, vovó me beija e eu que já rodei um bocado na vida sinto que felicidade ás vezes é só isso. Mesmo com o sol queimando a pele, secando os pés e fechando os olhos. E já que não falo coisa com coisa, queria que o tempo das fotos fosse hoje. E meu tempo já fosse outro.
Aqui no meu loft eu penso no tanto que ainda quero fazer. Nas possibilidades que uma boa companhia pode proporcionar. É, tem vez que nem acredito. Nem consigo também virar o disco do assunto.
Meu caminho sempre deu no mar. E o motivo agora eu sei qual. Construir uma vida, sem pressa, “muita calma para pensar e ter tempo pra sonhar”. “E eu que era triste descrente desse mundo ao encontrar você conheci o que é felicidade, meu amor”.
Vou caminhando e mamãe vê aquela mocinha bonita no calçadão, branquinha dos olhos azuis: você deveria namorar alguém assim. Então eu lembro que ela, Ana Maria, na noite passada tomou vinte copos de cerveja e fez ménage à trois. Alguém que acorda cedo, por quê? Me viro e penso que nem sempre a noite todos os gatos são pardos. De manhã com esse Sol cegando e mamãe vendo só roupas e óculos escuros, eu quero correr para o mar e ficar nu. Olha a pele, parece moça bem educada. Sábado passado ela colocou a mão na carteira do pai e financiou a erva para o namorado e os amigos. Eu boiando em alto-mar e um arco-íris fazendo sombra colorida sobre o peito.
"Controlando a minha maluquez, misturada com minha lucidez..."
Quando eu visto minha blusa estampada esvoaçante e saio rápido me lembro de Hélio Oiticica e dos parangoles queimados. Lembro que a cinza de uma história é melhor que aqueles que nunca fizeram história. Lembro de um namorado que não gostava dos meus cabelos vermelhos e das minhas calças folgadas: que depois que terminei folguei ainda mais as calças e afogueei mais ainda os cabelos. Lembro que sou chata e metida quando se metem a entrar no espaço das minhas escolhas. Que eu preciso cuidar da vida, porque algum dia estarei muito só: eu e as escolhas. Uma sina. Será?
Bóris costuma dizer que eu não tenho muito juízo. Que daqui a pouco me caso de novo. E sendo sincera, vontade não falta. Eu sempre penso que a vida é muito curta e que se uma coisa boa te aparece porque não vivê-la?
Eu gosto dessa história de família, de casamento, casa, filhos... E sinto falta. Não consigo enxergar minha existência de outra maneira. Isso eu sei.
O primeiro dia que vi amanhecer literalmente aqui. Minha vida de gato: de gatos, melhor dizendo.
Eu gosto tanto de algumas pessoas e queria tanto que elas conseguissem de desvencilhar de certas coisas, que sei lá...
Mas também, vou ver esse clipe da Norah Jones as seis e cinquenta e dois da manhã de domingo e mapear todos os lugares por onde espalhei palavras. Forever.
O dia é bonito, apesar de o Sol me queimar tanto.
Nem era disso que eu ia falar só que eu gosto de enroscar meus dedos nesse teclado. Ia comentar sobre o show de ontem no Festival Mundo.
Burro Morto é a banda mais viva que vi nesses últimos tempos. Eles são modernos, psicodélicos: conseguem que eu feche meus olhos e entre em sintonia. Tem futuro e estão acima do nível das outras bandas que se apresentaram anteriormente.
No mais, o festival é uma boa idéia. Comentava que a PB precisa de mais eventos como esse. Gosto de misturas e da diversidade. A vida só é boa se diversa. A vida só é boa porque existe a música, porque existe você ao meu lado.
Acordei e escutei muitas músicas, numa espécie de meditação. Então, deu vontade de ver e ouvir Pink Floyd. Tem um show deles que acho mesmo uma viagem espacial o Live at Pompeii. E não deixa de ser. Escrevi muito no transe daquele som e daquelas imagens com crateras, larvas, e rostos joviais.
Também fiquei contente em como meu novo espaço é gostoso, é limpo, e prático. Posso deitar na cama e pular as músicas no teclado do computador sem levantar. Vejo TV, durmo, lavo roupa, varro sem sair do lugar, apesar dos hematomas. Não importa, é melhor hematoma externo que interno: na alma como eu vinha sentindo nos últimos tempos.
E os caras fazem círculos de fumaça, e de repente precisam da erva para inspirar. Eu como me inspiro com qualquer coisa, deve ser por isso que nenhuma droga me tira de mim.
Sábado passado fomos pro show de Cabruêra e me diverti na minha sobriedade. Então me pergunto: sou sóbria e estou sempre em transe?
Lembrei também de quando eu brincava carnaval, e num desses um cara veio e me perguntou qual droga eu estava usando para estar tão contente, e eu disse: minha droga natural do riso. Muitos não entendem que me eletrizo por si só, não preciso de artifícios.
Pink Floyd, uma nuvem engraçada, um dia de chuva, uma cadeira de balanço, um abraço de quem amo, uma gargalhada com os amigos, um pôr-do-sol, a mata verde, me deixam em êxtase e até mesmo com os olhos vermelhos.
Eu tenho certos prazeres. Marcelo diz que tenho um jeito particular de dizer e sentir as coisas e que é interessante. Por exemplo: depois que arrumei meus livros aquilo me encheu de graça. O colorido do conhecimento.
Estou com sérios problemas de volume: volume de riso, volume de música, volume de sono, volume de planos. Eu estava tão sem esperança de dias melhores que ainda fico sem acreditar, sabe!?
Essa semana dei uma lida no meu livro. E pensei que realmente aquele foi um bom momento de inspiração, nem sei se consigo escrever mais daquele jeito. Quem sabe depois, se um dia publicá-lo.
Disse a um amigo que eu to muito lírica. Nada tem me estressado e eu to tão admirada da vida, que sei lá... acho que estava merecendo mesmo.
É como se estivesse passado por um terreno pantanoso, ou mesmo um atalho cheio de buracos e barrancos e agora voltando ao verdadeiro caminho você lembra que tem princípios e valores. Os olhos brilham e sorriem sozinhos como dois bobos no meio da multidão.
Como sempre, comigo, tudo é muito rápido e o tempo que cronologicamente falando é curto para mim compara-se a cinquenta anos. Então, cheira a lavanda e me equilibra. Sem rituais, sem segredos.
E se alguém disser que to espiritual demais, talvez eu esteja mesmo, e daí!?
Quando só se pensa e ri. Quando até medo você sente, mas é medo bom. E se está tranquilo não importa que a ordem espere. Mas também não é o caos. O que é? Um cabelo caindo sobre os olhos ou um topete, ou simples choque. E uma certeza sabe-se lá de onde vem. É bom e a gente quer eternizar.
*** E hoje ele faria 79. Tenho certeza que andou mexendo os pauzinhos lá em cima.
É uma pena que os casais se separem cada vez mais cedo. Não custa e quando menos esperam, estão desfazendo a mala comum, desarrumando os troços. Hoje, aquele papo de amor eterno parece balela. O sim dado no altar ou na presença do juizado civil, ou a simples decisão de morar junto, transforma-se em não rapidamente, sem que às vezes sequer dê tempo de esquentar o leito. Já vi casamentos que não duraram a noite de núpcias. Depois de passada a euforia dos sentidos, é como se corresse sangue nos olhos dos casais quando descobrem que não foram feito um para outro. Se desesperam, destratam Deus e o mundo pelo equívoco cometido. Eram desiguais, não combinavam, jamais dariam certo. Por que se escolheram, então?
Ora, ela me surpreendeu com a notícia de que havia terminado com o sujeito com quem escolheu morar pela primeira vez. Jovem advogada com menos de trinta que no início da relação se dizia encantada pelo tal como se houvesse encontrado o príncipe encantado da sua vida. E na verdade era isso. O encantamento dos olhos cega o coração, os ouvidos são tocados com a impressão das palavras mais belas e envolventes, viram um só os dois pela descoberta de que foram feitos um para ooutro. Por isso o caráter decepcionante da alma quando vem à tona a verdade. Não éramos companheiros eternos, ela disse.
Sei que não adiantaria falar muito a respeito. Me fiz de compreensivo sem alarmar a infeliz por essa desgraça. Os dois, meus amigos, a quem tantas vezes creditei o mais sincero desejo de que se cuidasse um ao outro, desfizeram a união que por pouco não viraria padrão em nosso meio, tão encantados, tão contentes nos últimos dois ou três anos. Era um desses casos em que nem o mais duro dos corações não acreditaria desse certo. Nem que depois viesse o fim. Nem que acabasse no outro dia. Para esses só uma vida era pouca. Assim era.
Mas chega o dia. Lá nas altas do tempo, um descobre que não dá mais. O outro também. E passam um mês, dois, preparando a despedida. Descobrem, por fim, que não estão mais presos um ao outro, e que, fatalmente, o casamento também havia virado prisão para eles. Não dá mais. É dar um basta e seguir adiante. Que a mãe não entenda, que fique infeliz, que os amigos comentem que já sabiam que estava acabando, e que ninguém mais creia no amor. É frágil a linha mágica que nos unia, agora já era.
E elegantemente saem pela mesma porta. Ele lhe diz: vá em frente. Ela, por seu lado, confirma: não estou infeliz. Outros dias virão e mais à frente verei a luz de um olhar diferente da que puder ver nos seus olhos. E novamente me apaixonarei. Quem sabe não será dessa vez?
É, quem sabe. O amor é feito de apostas. Quando dá, se é feliz. Quando não, tenta-se de novo. Só não se pode prender a si e ao outro em nome da mentira. Melhor assim, ainda que a separação seja triste, atormente. Veja as coisas pelo lado bom. Como disse o Nelson Rodrigues, o amor, se acaba, não era amor.
Espero a máquina. Espero a roupa. Agora pouco falava com minha amiga Nivitas e lembrei que meu blog já está na casa dos cinco anos. Quando chego aqui vejo que é exatamente amanhã dia 03 de setembro. Olha só!! Antes eu escrevia no Aprendiz (link ao lado), quando vim pra cá, acho que realmente dei umas mudadas.
O que quero dizer é que: tem noção, são cinco anos!? Meia década.
Cada um dos posts guarda muito de mim. Tem trechos de livros, vídeos e músicas de que gosto. Tem muitas lembranças. Alguns contos do meu livro, ainda inédito. Na verdade, sempre estive tentando eternizar os momentos da minha vida. Guardo meus brinquedos na casa lá do sítio. Meus diários na casa de Cajazeiras. E depois, aqui na internet esses últimos cinco anos. É tanta casa, e como diria Gigio: qual é tua casa mesmo? Sabe, minha casa é qualquer lugar onde eu possa guardar essa esperança da cor de Verdura.
E pra quem não sabe, segue a música que deu nome ao blog:
Verdura
(Cantada por Caetano Veloso e composta por Paulo Leminski)
Caetano disse “Coragem grande é poder dizer sim”. E eu penso exatamente o contrário. Já disse tanto ‘sim”, que acho mesmo coragem grande é dizer “não”. E eu disse.
“Penso em ficar quieto um pouquinho
Lá no meio do som
Peço salamaleikum, carinho, bênção, axé, shalom
Passo devagarinho o caminho
Que vai de tom a tom
Posso ficar pensando no que é bom
[...]
Nu com a minha música, afora isso somente amor
Vislumbro certas coisas de onde estou
Nu com meu violão, madrugada
Nesse quarto de hotel
Logo mais sai o ônibus pela estrada, embaixo do céu
E a gente vai redescobrindo algo que achava estar perdido. Mas a essência nunca muda. Por mais que eu me perca mais me encontro dia após dia. Estou na fase cantores de rádio e poesia. Até rimando.
Dever de Sonhar
(F. Pessoa)
Eu tenho uma espécie de dever, dever de sonhar, de sonhar sempre,
pois sendo mais do que um espetáculo de mim mesmo,
eu tenho que ter o melhor espetáculo que posso.
E, assim, me construo a ouro e sedas, em salas
supostas, invento palco, cenário para viver o meu sonho
É como se desfazer dos sapatos que não servem mais. Mistura de alívio pelos calos não mais feitos e saudade pelos caminhos que percorreram juntos aos pés. Então é isso. Quem sabe de repente, você passa numa vitrine e lá está outro e vc gosta tanto que compra vários pares para que nunca se acabem. Quiçá.
Vim pensando nisso no ônibus logo depois que eles subiram fazendo um barulhão carregados de sacolas e baldes. Eu não sou artista. Até queria ser porque todo mundo pensa: eles é que são felizes. Mas, eu não consigo não ter horários, ou o dinheiro no fim do mês pra pagar as contas. Tenho tique nervoso no olho direito em dias de preocupação. Tenho minhas loucuras aqui e acolá, mas nada de dormir debaixo da ponte ou perder as roupas. Ás vezes, até queria sabe!? Só que meu lado materialista fala mais alto.