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ASSONÂNCIAS

 

Pelas ruas miro cabelos assanhados, meninas magras com olheiras fundas. Se bonitas travestem-se de feias, mesmo assim lindas. Rápidos, cigarros nas mãos, olhares perdidos, ou fixos nalgum lugar. Preto e branco. Unhas vermelhas, descascadas. Roupas sem nexo, chapéus com violões nas costas. Rock roll ou blues. Quanto mais menos mistura. Ecos. Gramas sob calcanhares finos, sapatos furados. Apenas os gatos sempre os mesmos e nunca iguais. Busca vazia. Coiote por trás de lentes quietas. Dissimulação.



Escrito por Amanda às 15h51
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PRIMEIRA PARTE

 

 

Os fios em paralelo. Poste. Bebo uma cachaça ao som de rock inglês, mel e limão sem sementes.

Letras esquecidas, vírgulas. Traduções. O dia amanheceu mais azul e alguma coisa me chama. O salário que não veio? A viagem que não fiz? Talvez. As nuvens passam por trás como um barquinho em água calma. Lá está Joyce acenando com riso largo nos lábios.

Mais um gole. Pretendo correr, me pendurar num trapézio de olhos fechados, vestir casaco de pele: neve.

São três da tarde. Soa a campainha. Um bilhete escorrega por debaixo da porta. Recado feito com recortes de jornais:

 

NO saLão de QUATRO entradaS ÁS nove.

AMANHÃ

 

Fecho um dos olhos e olho vesgo através do copo verde. Gomos de limão estouram dentro da boca. Corto uns bifes antes de partir. Às oito e cinqüenta e três: pegar ônibus, caminhar setenta metros. Escolher um dos lados. No céu três urubus voam em círculo. Vai chover.

 



Escrito por Amanda às 08h47
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Papos virtuais:

Canga: pra semana eu to fudido.

Eu: pq?

Canga: tenho que me virar com 50 reais.

Eu: ah... e eu com 5 centavos.

 

Pensando:

Estar em Cajazeiras é ser passarinho bonitinho dentro da gaiola.

O que salva ou estraga é a Literatura. (depende do ponto de vista)

 

como ser um grande escritor - por charles bukowski

 

você tem mais é que comer muitas mulheres

mulheres bonitas

e escrever uns poemas de amor decentes.

 

não se preocupe com a idade

e/ou novos talentos.

 

apenas beba mais cerveja

mais e mais cerveja

 

e vá às corridas ao menos uma vez por

semana

 

e ganhe

se possível.

 

aprender a ganhar é difícil -

qualquer porcão pode ser um bom perdedor.



Escrito por Amanda às 08h56
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e não se esqueça de Brahms

e de Bach e de sua

birita.

 

não faça muito exercício.

 

durma até o meio dia.

 

evite cartões de crédito

ou pagar qualquer coisa no

dia.

 

lembre-se que não existe um cu

nesse mundo que vale mais que $50

(em 1977)

 

e se você tiver a capacidade de amar

primeiro ame a si mesmo

mas sempre tenha em mente a possibilidade de

derrota total

ainda que a razão dessa derrota

pareça certa ou errada -

 

um gostinho de morte cedo não é necessariamente

uma coisa ruim.

 

fique longe de igrejas e bares e museus,

como a aranha seja

paciente -

o tempo é a cruz de todo mundo,

mais

solidão

derrota

traição

 

toda essa sujeira.

 

fique com a cerveja.

 

cerveja é o sangue contínuo.

 

um amor contínuo.

 

pegue uma boa máquina de escrever

e enquanto os passos vêm e vão

além da sua janela

bata nela

bata nela com força

 

como se fosse uma luta de pesos pesados

 

faça como o touro em sua primeira investida



Escrito por Amanda às 08h56
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e lembre-se dos velhões

que lutaram tão bem:

Hemingway, Céline, Dostoiévski, Hamsun.

se você acha que eles não enlouqueceram

em quartos minúsculos

assim como você faz agora

 

sem mulheres

sem comida

sem esperança

 

você então não está no ponto.

 

beba mais cerveja.

há tempo.

e se não houver

está tudo bem

também.

 

(Tradução de Fernando Koproski, para este livro esgotado)

 



Escrito por Amanda às 08h55
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“VEM DORMIR, VEM SONHAR, PRA VIVER”

 

Pior que criança quando está brincando e não quer mais parar. Isso foi semana passada, no show de Beto Guedes. Há quanto tempo não ficava com as mãos geladas e os olhos querendo pular por todos os lugares. Adoro Beto Guedes por suas músicas ingênuas, seu sorriso zen e aquela energia paz e amor refletida na latinha de cerveja que bebia junto ao esquecimento das letras. Pulei umas vinte casas desse jogo. E a Estação bem que podia ser ali na esquina.

 

LUMIAR

Beto Guedes / Ronaldo Bastos

 

Anda, vem jantar,

vem comer, vem beber, farrear

até chegar Lumiar

e depois deitar no sereno

só pra poder dormir e sonhar

pra passar a noite

caçando sapo, contando caso

de como deve ser Lumiar

 

Acordar, Lumiar, sem chorar,

sem falar, sem quer

acordar em lumiar

levantar e fazer café

só pra sair caçar e pescar

e passar o dia

moendo cana, caçando lua

clarear de vez Lumiar

 

Amor, Lumiar,

pra viver, pra gostar,

pra chover, pra tratar de vadiar

descançar os olhas, olhar e ver e respirar

só pra não ver o tempo passar

pra passar o tempo

até chover, até lembrar

de como deve ser Lumiar

 

Anda, vem cantar,

vem dormir, vem sonhar, pra viver

até chegar em Lumiar

 

Estender o sol na varanda até queimar

só pra não ter mais nada a perder

pra perder o medo, mudar de céu, mudar de ar

clarear de vez Lumiar



Escrito por Amanda às 21h04
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“Os novos autores têm apresentado, hoje, coletâneas e romances de estréia muito superiores aos dos estreantes da década passada.

A atmosfera comum a toda essa prosa exclusivamente urbana é a do bizarro. Que, tendo em vista apenas a estrutura formal, aparece das mais diferentes maneiras: ora em linha reta, ora em ziguezague, ora fragmentada, ora pulverizada e misturada, mas sem jamais perder a sua consistência bizarra. Isso logo de saída resolve o cabo-de-guerra entre lírica e sociedade , conforme discutido por Adorno e tantos outros. A propensão para o nefasto, para o sinistro, para o agourento, afasta desses novos autores o dilema sofrido pela maioria dos artistas desde que o mercado editorial se estabeleceu: produzir para as massas ou para elite? Vender trezentos mil exemplares ou só trezentos? Todos eles, consciente ou inconscientemente, escrevem para a pequena elite intelectual da qual eu e você, querido leitor fazemos parte. Porque escrever para o leitor médio, ingênuo e de gosto pouco apurado, está fora de cogitação. Vivemos em um país em que pouco mais de dois terços da população não conseguem ler e entender uma simples notícia de jornal. Literatura, para esse contingente, é algo que não existe. Para boa parte do terço restante, só interessam o misticismo barato e o kitsch. Uma vez que os best-sellers se encharcam do mau gosto dos sentimentos nobres e edificantes, o pendor para o bizarro já pressupõe a presença do leitor sofisticado. “

Nelson de Oliveira in A oficina do escritor – sobre ler, escrever e publicar



Escrito por Amanda às 18h13
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CLICHÊS (para dias de chuva)

 

Sentar no chão da sala.

Tomar cachaça com limão.

Ouvir Engenheiros do Havaí (Alívio imediato)

Pensar na vida, na noite.

Acender cigarro.

Querer rever amigos.

Bater perna até que o dia apareça.

Ir ao banheiro.

Vomitar

Ver a gota que escorre da torneira.

Assistir novela das 8.

Dormir.



Escrito por Amanda às 17h59
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