Eu tinha, acho, que uns cinco anos, morava no sítio e ia todos os dias estudar em Cajazeiras. Numa dessas viagens me perguntaram de quem eu gostava mais se Madonna ou Michael Jackson, eu como criança nem sabia responder direito. A menina me induziu: Michael Jackson né! Madonna é muito escandalosa. Eu disse: é!?
Fiquei triste com a morte dele. Como devem estar hoje milhares de pessoas.
Quantas apresentações no Teatro Ica. Não dele, mas de todo mundo que imitava. Uma em particular começava com o barulho de um copo quebrando. Estilhaços de um tempo acabado.
Lá no meu pé de serra ai que saudades eu tenho. Quando chega junho eu fico mesmo mais melancólica que o normal. É São João e eu me lembro tanto do meu avô e de um tempo que a simplicidade me fechava no meio de fogueira, de chuvinhas, de milho... Eu não posso ouvir Luiz Gonzaga sem que uma lágrima queira cair. Ai ai que dor, as fulô do meu sertão... vendo as abeia beber mel. Meu avô sempre comprava todos os discos de Luiz e botava na radiola e eu me sentava com ele e me balançava até dormir. E vovó dizia que as músicas de hoje só falam de amor, isso há mais ou menos uns 18 anos. Eu e meu irmão brigávamos e mainha pegava o chinelo e a gente corria. E eu soltava traque nos pés dos meninos e ria ria ria. Eu caia e chorava. Nas férias eu ia para roça e tirava tomate com uma latinha que meu avô fez. Na escola Alberto me chamava de beradera e eu chorava de novo. Mas o pobre vê nas estradas o orvalho beijando a flor. Chorava porque fui morar na cidade. Eu chorei. Meu Deus se eu pudesse fazer o que manda o meu coração. Saudade que aperta que dói que maltrata. Mangaratiba eu achava que era um palavrão. Cheguei cheguei. O mar é belo lembra o seio de Ceci. Dezessete e setecentos. Bastava ele dizer respeita Januário e a gente se calava direitinho. No fim do ano vovó fazia peru com farofa e íamos todos pro Canindé. Ai ai que bom que bom que bom que é. Uma estrada e a lua branca. Uma gente andando a pé. Um casal de galo campina sempre sentava nos fios e cantava, cantava e mudava mesmo de cor. Molhava os pés no riacho. Que água fresca Nosso Senhor. E eu não posso usar havaianas sem lembrar os arames que ele botava pra remendar. Eu lembro. Quer queira quer não.
Às vezes você escuta o sorveteiro e quer muito sorvete, mas não tem coragem de levantar e contar moedas e descer a escada abrir o portão. Às vezes você sabe que seus amigos estão cada qual no seu canto e não tem coragem de pegar o telefone e procurar e ligar e falar. Às vezes você está numa festa e muita gente chega e você não tem vontade de levantar e deixar seu copo e ir cumprimentar e ir perguntar como vai como foi? Às vezes o banco está te roubando e você não agüenta fichas e filas de banco e sorriso falso de atendente de banco. Teu chefe vai chegar e vai te pedir muita coisa e você não está a fim de rir e dizer está tudo bem. Ok. Ok. Às vezes você quer ir praquele lugar onde nem pega telefone, nem pega carro nem pega formalidades, nem pega...
Bastante água fresca ou coisa assim. Dia 30 acordei no meio da noite e tava passando “Elas cantam Roberto” e foi justamente na hora que Nana Caymmi cantava lindamente não se esqueça de mim. Dia 03 fomos pro show de Roberto, não achei tão lindamente assim, eu quis me arrepiar mais, até pensei: mas achei Roberto tão mecânico, como uma paixão que você deseja tanto e de repente não é aquilo que se imaginou. Dia 07 eu voltava pra casa e numa das casas da rua estava havendo festa, só notei porque escutei Chico Buarque cantando “Passaredo” e fiquei tão feliz. Dificilmente se espera ouvir Passaredo em uma festa. E hoje pego uma seleção que Linaldo trouxe de Cajazeiras e escuto novamente Nana só que cantando “Bancarrota Blues”, confesso que essa não é uma das minhas músicas preferidas de Chico, mas com Nana arrepiou como eu nem esperava.
Fomos comprar presente pro dia dos namorados e fiquei pensando como é difícil ser gay. Tive que fingir que era pro meu namorado e foi engraçado. Aí no shopping você vê uns tipos que não se vê em todo canto. Não sei se isso é bom ou ruim.
To vendo muitos filmes. Muitos filmes de Almodóvar. E o que mais gosto são os travestis e Penélope Cruz, sem contar certa “frieza” com que os personagens tocam a vida.
To gostando muito do livro “O Matador”. O enredo é bem construído, o que tem me prendido. Um dos melhores que li ultimamente. É transgressor, mas tem uma história para contar. Se é que alguém me entende. Não é uma mera sequência de fatos. Creio que irá culminar em alguma coisa.
“Enquanto caminhava e olhava para os meus sapatos fodidos, eu pensava que a vida é uma coisa engraçada. Ela vai sozinha como um rio, se você deixar. Você também pode botar um cabresto, fazer da vida o seu cavalo. A gente faz da vida o que quer. Cada um escolhe a sua sina, cavalo ou rio”.