Anjinha disse que não rasgaria mais sutiã, pra que? Eu nem visto essas coisinhas com elásticos. Até pensou num sapato vermelho com uma rosa de bolas brancas, mas voltou e calçou sua plataforma calando a vontade de ser pequena. Peut-être como se francês ela soubesse falar.
Tô com fome. E meu vizinho gay escuta algo do tipo “vida vazia vivo sozinho querida”. Então, espero o frango cozinhar e fico rindo sozinha tomando uma taça de vinho. Bem brega ouço mais um lacre de cerveja se abrir. “Nessa cidade todos tem felicidade. Eu só quero é viver.” E silencioso sei que mais uma lágrima dele cai depois de bater a porta. Mais trágico que cômico? “Outra cerveja beberei para esquecer. Um amor que surge numa mesa entre espumas terá que terminar”. E a trilha continua: “Eu fui usado como arma de vingança
Para fazer o mal ao seu namorado E agora ele volta pra você Você me deixa de lado”. Tsc.
Prefiro saber que visto 42, que meus pés estão cheios de calos, que quando caminho dói tudo. Prefiro saber que meus dentes estão quase caindo. Do que errar. Do que me sentir burra. De ser tão neurótica.
E que é tudo mentira. Porque eu me importo com tudo. E minha cabeça se confunde. Oh!
As lojas daqui já estão enfeitadas para o Natal. Eu gosto desse período. Apesar da hipocrisia e todas outras sias que tem eu prefiro colocar uma venda nos olhos e curtir. E as promessas para 2010 já começaram. Escuto The Kinks “Dandy”.
Não sei se o Sol, mas tem dia que eu não to afim de muito. Uma coisinha aqui dentro fica martelando: o que essa garota quer afinal? Talvez seja falta de um livro, ou de um filme. Porque no momento eu tenho todos os elementos que pedi. Trabalho muito trabalho. Amor muito amor. Saúde nem tanto, mas... Será falta de arte? Ou de vergonha? Parece também que quando a gente mora só fica mais maluca que o normal. Um bloqueio da voz.
No meio dos cupins eu catei algumas moedas antigas e fotos. Páginas inteiras comidas e pensei: cupim não come memória, mas bem que devia vezenquando. Eu me balanço na rede escuto música, vovó me beija e eu que já rodei um bocado na vida sinto que felicidade ás vezes é só isso. Mesmo com o sol queimando a pele, secando os pés e fechando os olhos. E já que não falo coisa com coisa, queria que o tempo das fotos fosse hoje. E meu tempo já fosse outro.